28 março 2018

Aparências... o efeito do brilho dos espíritos em aparências peculiares.


Não, ela não é bonita. É muito magra, com faces encovadas e olheiras imensas. Os cabelos já não são tão sedosos e as neves começam a se instalar entre um e outro fio de ébano. A bem da verdade, há mais neve que ébano. Os efeitos da gravidade se fazem visíveis...
Ela nunca foi bela. Na juventude, a magreza já era visível, as faces encovadas eram menos enrugadas. Os cabelos eram o que havia de melhor, negros, muito negros e extremamente sedosos.
Um tanto obtusa, era perceptível a falta de conhecimento acadêmico. Embora tivesse vocabulário elástico, não sabia combinar as palavras. Concordância, regência. Nada disso. Apenas vocabulário suficiente para escapar às gírias.
Dentição proeminente. Os lábios não eram suficientes para esconder o sorriso permanente. Involuntário e permanente. Sabia-se de seu desagrado pela ruga que se formava no meio da testa. Ruga traída pelo sorriso. Não a levavam a sério.
Era mulher de gênio difícil. Um tanto mimada, mas com a medida certa de realidade. Fosse bonita seria perfeita. Apresentaria aquele quê de sedução, de candura vinda do olhar, aliada ao acre da personalidade controversa. O olhar causava espanto. Muita olheira para pouco olhar. Os olhos, muito negros, disputavam com a escuridão das olheiras. No meio dessa amálgama, vinham-lhe os cabelos acobertando (ou tentando) o olhar esquisito. Era estranha, muito estranha. Um enigma.
Provocava paixões.Como??? Não eram as posses. Não era a aparência.
Extremamente generosa, fazia as pessoas se sentirem à vontade, velhas conhecidas, amigas de infância. Qualquer interesse ou maledicência  ou interesse escuso se desvanecia naquela luz. Encantava a todos os que se detinham mais de 5 minutos em sua presença. A aparência um tanto estranha se tornava simpática, curiosa até. Pensando melhor, não era tão feia nem tão estranha.
Cada palavra dada entre aquele sorriso que insistia em permanecer... era tão peculiar. As rugas que se formavam na testa e, hoje, são tão permanentes quanto o sorriso . Não se sabe mais quando está zangada. Mas como alguém tão encantadora se zanga? Não, não há contrariedade. A bondade sempre presente. Aquela sensação de aconchego, como a evocar um lugar gostoso de um passado distante em que você se sentia pleno, invulnerável , feliz. Sim, ela trazia essa sensação. Talvez por isso fosse tão especial. Despertava na alma do outro o descanso necessário, quase entorpecente... a impressão de que se é verdadeiramente importante, preciso, amado.
O poder de tocar o inconsciente, o espírito. Trazer para perto de si, mesmo com todos os defeitos, a certeza de que aquele mundo distante, pretérito, mas perfeito, mais que perfeito, pudesse ser perene. A eternidade de um instante, presente naquela mulher exótica. O mistério se esclarecendo naquelas olheiras escuras, ladeadas pelo negro dos olhos e o balançar dos cabelos de ébano. Mistérios esclarecidos pelo brilho de íris tão escuras.
A certeza de que a alma de alguém tão distinta, única, ultrapassa a ilusão proposta pela aparência, para apresentar a verdade de um espírito capaz de conquistar o mundo, mas extremamente satisfeita com sua casa, mobília, marido, filhas, amigos e aparência. A satisfação de se saber estranha e, ao mesmo tempo, tão única. Um mistério tão claro quanto a neve que agora se amalgamava ao ébano.


08 fevereiro 2018

Receita para saber se você é uma boa pessoa.

Ingredientes:
- Você
- Seu interior
- Uma boa memória para guardar as sensações
- Quem te cerca
- Quem te admira
- Um telefone ou um e-mail para enfeitar
Modo de fazer:
Pegue você mesmo e se olhe. Não é ir para o espelho, é se voltar para dentro de você. Quando estiver aí dentro, olhe-se com sinceridade. Veja seus defeitos, perceba sua sombra, aproxime-se dela. Volte-se para a luz (se você tiver uma, claro), aconchegue-se nela, sinta o calor. Analise o que sente. Reserve todas as sensações na memória.
Depois, observe todas as pessoas que te cercaram e as que te cercam. Verifique a qualidade daquelas que permaneceram e das que deixaram saudade. Reserve na memória, ao lado das sensações.
Note as pessoas que te cercam, separe as que sinceramente gostam de você, as que lhe admiram. Não analise nem contabilize as que te amam, estas, às vezes, não percebem o seu caráter ou, quando percebem que ele é ruim, não cessam de ajudá-lo a melhorar.
Tire as sensações sobre sua sombra e sua luz (quando há) da memória e misture-as levemente com a qualidade das pessoas que ficaram e das que tiveram de partir. Mexa até o obter uma massa homogênea e perfumada, com brilho gostoso se saudade que aqueça seu coração. Se não conseguir passar para o próximo passo, reveja-se urgentemente.
Pegue essa massa e vá adicionando aos poucos as pessoas que, genuinamente, gostam de você. Antes de colocá-las na mistura, observe se elas também são admiráveis, cultivam valores, têm ética. Perceba a energia delas, descarte aquelas que tem a vibração pesada. Se sobrar menos de 10%, recicle-se, sob pena de virar adubo.
Depois que sua massa estiver brilhando, cheirosa, com salpicos de felicidade de se ver nos olhos puros de seus amigos, Rejubile-se, você é uma boa pessoa.
Telefone ou mande e-mail para algum desses amigos incorporados à mistura. Se a alegria deles for indisfarcável, aproveite!!!
Na véspera dos meus 42 anos, estou imensamente feliz e posso dizer, com todas as letras, que sou uma boa pessoa. Meu maior e melhor termômetro são os que me cercam. Tenho amigos incríveis, de qualidades estupendas. Os falsos ou de caráter duvidoso, não permaneceram (só isso, já diz muito). Não sou delicada nem "mocinha", mas nem isso afastou as pessoas que são um presente na minha vida.
E para coroar isso tudo, ainda tive a graça de ter Nossa Senhora Aparecida me abençoando e Deus respondendo às minhas perguntas e acalentando meu espírito (Obrigada, Papai!!!)
Apesar de ter quase certeza de que sou uma boa pessoa, confesso que gosto imensamente da dúvida. É ela quem me faz querer melhorar dia a dia como ser humano, adubando a terra para o plantio e irrigando a alma. A dúvida me fortalece.

06 fevereiro 2018

Em se plantando tudo dá... e como dá!!!

Hoje é dia de textão.
Há algum tempo, vi um vídeo sobre um maratonista espanhol que, em vez de se aproveitar de um engano de seu adversário, mostra a ele o erro, permite que o outro competidor vença e fica em segundo lugar.
Lembro-me do Sérgio Cortella replicando o que o maratonista disse sobre o episódio: "Se eu ganhasse desse modo, qual seria o mérito da minha vitória? O que é que eu ia pensar de mim mesmo?"... e o principal: "O que é que eu ia falar pra minha mãe?"
(eis o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=_bRvG6Ohjuw)
Há pessoas acostumadas a mentir, a trapacear, a falsear os acontecimentos para terem "vitória". Não satisfeitas em mentirem sozinhas, arranjam quem as ajude nas mentiras.
As pessoas mentem e prejudicam as outras numa ilusão de benefício. Pode ser benefício financeiro, de "ficar bem na fita", pra "posar de vítima". Enganam as pessoas e se esquecem de que não há como se enganar a vida.
Há séculos, Newton já nos advertia "toda ação corresponde a uma reação de mesma direção e intensidade, e de sentidos contrários". Antes de Sir. Isaac Newton, Cristo no falava "O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos."
O que isso quer dizer? TUDO o que fazemos volta para nós. TUDO tem retorno.
E como isso funciona? Como o grão de mostarda. Ao se plantar essa semente, o grão em si é minúsculo; na hora da colheita, a árvore que germinou daquela sementinha é imensa! Por isso, quando praticamos o bem, por mais ínfimo que ele seja, coisas grandiosas nos ocorrem: somos ajudados em momentos de desespero por desconhecidos de bom coração; aparece trabalho do nada quando a grana encurta; o carro pifa em frente à oficina... Mas quando se pratica o mal, por menor que seja... não gosto de imaginar.
É assim para tudo e para todos? Sim!!! Escondemos nossas intenções dos outros, tentamos esconder de nós mesmos, mas não há como esconder da vida, nossa credora. Ela sabe o que fazemos e qual a nossa intenção na ação, pois ela é a terra em que plantamos e a terra da qual colheremos os frutos do nosso plantio.
Uma verba desviada, uma mentira contada, um mal plantado é minúsculo! E a colheita é farta.
Além da lei do retorno, existe a lei da atração. Ao contrário do que ocorre na Física, atraímos para nós pessoas e vibrações semelhantes àquilo que oferecemos à vida. "Orai e vigiai" vem justamente dessa necessidade de cuidarmos daquilo que transmitimos.
Hoje, eu tive o prazer de vivenciar a honra de ter podido falar para algumas pessoas "conte a verdade, fale daquilo que você viu, não minta mesmo que você ache que a sua mentira me beneficie"... e essas pessoas fizeram isso!
Agora, aos mentirosos e a quem incita (e se vangloria!) a mentira, uma advertência: a mentira de hoje é do tamanho de um grão de mostarda; quando tiver de colher os frutos da mentirinha plantada (aquela que enganou o outro, mas não a vida) será do tamanho da "maior das hortaliças e faz-se árvore", de tal modo que as aves de rapina não se desprenderão de seus ramos.
Qualquer outro incauto que desconhece o que vai além da nossa vã filosofia diria "Ah, mas quanta bobagem, você poderia ter elaborado uma mentira excelente e viável para se beneficiar?". Claro que poderia! Mas "o que é que eu ia falar para minha mãe"? Poderia ganhar a corrida com trapaças??? Poderia também, mas "Se eu ganhasse desse modo, qual seria o mérito da minha vitória? O que é que eu ia pensar de mim mesmo?".
E isso é tudo por hoje!!!
Plantem boas sementes!!! E, relembrando Chico Xavier, "o bem que você pratica é seu advogado em toda parte".

03 outubro 2013

Ao Meu Amor


Sempre tive em mente que, quando as almas gêmeas se encontram, tem alguma sonoplastia. Nuns casos você consegue ouvir um "plim"; noutros, os sinos dobram.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que vi meu sogro José Afonso.

Conhecemo-nos num bar que fica lá no CONIC (todas as vezes que passo ali, lembro desse dia e me vem um sorriso no rosto e meu coração fica bem quentinho). Mas antes fui "avisada" de seu suposto gênio difícil. Bem, sei que foi um gênio que nunca vi. Fui desconfiada, com um medo de apresentar a ele meu gênio também difícil. Assim, que nos vimos, deu pra ouvir os sinos. Embalamos uma conversa interminável, sobre diversos assuntos. perto de nos despedirmos, ele se vira para o filho e diz:

- Ela não é nada obtusa.

Metida como eu só, nem deixei o filho responder, já fui retrucando:

- Sou não, "seu" Afonso, Graças a Deus!

- E você sabe o que quer dizer obtusa?

- Sei sim!
- Minha filha, pode casar com o Júnior e, se um dia vocês separarem, eu serei seu advogado.
 
O tempo passou, casei, separei (não, ele não foi meu advogado, minha separação foi tranquila, não guardei raiva nem nada de ruim do filho dele. Nem poderia, de todas as desavenças com meu ex-marido, é bem nítida a boa criação que recebeu do pai), mas, mesmo não carregando mais o seu sobrenome, não deixamos de ser almas gêmeas.

Notei isso quando fui visitá-lo, já bastante debilitado por conta das sequelas deixadas por um AVC e vi, na estante do seu quarto, uma foto que tiramos assim que meu primeiro filho nasceu. Estávamos eu, ele e o Marco. Ele preocupado em não "quebrar" o neto e eu rindo da situação. Estávamos felizes ali.

Ver aquela foto lá, mesmo depois de separada do filho dele, fez-me ver o quanto eu era especial para ele. Naquele dia, conversamos sobre a advocacia (tinha me formado recentemente) e ele me contou da alegria que era não separar uma família, chamar os cônjuges para conversar e lhes mostrar a importância de se manterem unidos. Também sinto a mesma alegria e, sempre que consigo, lembro-me dele.

Agora minha alma gêmea está se preparando para me deixar. Mas como toda boa alma gêmea, posso, até nesse momento tão doloroso, valer-me da generosidade dele, para poder aceitar sua partida porque terei um pedaço dele comigo nas lembranças fantásticas que trago, no exemplo incrível de homem íntegro, honesto, batalhador, inteligente, estudioso que ele deixará aos filhos e aos netos e no modelo de excelente profissional: uma advogado que valorizava o que a advocacia tem de melhor a confiança que outro ser humano deposita em alguém completamente desconhecido.

Obrigada por tudo, Meu Amor!!! (Tratávamo-nos assim, por “meu amor”).

10 maio 2013

Dia das Mães.. ou só "Mães"

Dia das Mães.
Apesar de muitos condenarem essas datas festivas, alegando servirem apenas para estimular o consumo, o Dia das Mães e o Dia dos Pais tem especial apelo emotivo, pois evocam a presença de duas figuras fundamentais.
Não adianta querer dizer que algum deles é dispensável. A ausência ou a presença deles é crucial na vida de qualquer ser humano.
Mas hoje vou falar de apenas uma ausência: a ausência da mãe. Vou escrever não pela data, mas por uma foto que recebi em meu e-mail que me levou às lágrimas. A foto de uma criança que perdeu a mãe para a guerra. A falta da mãe foi tão marcante, tão dolorosa na vida dessa menina que, mesmo com toda sua singeleza, pegou um giz, foi ao pátio do orfanato e desenhou sua mãe. Depois de pronto, aninhou-se no colo desse desenho e ali ficou.
Curioso que a falta dessa mãe atingiu não só à menina, mas a mim também. Só de escrever sobre isso, volto a chorar.
Todos têm receitas maravilhosas sobre como ser uma boa mãe, não só uma boa mãe, mas a melhor mãe do mundo. Todas essas receitas mirabolantes se resumem numa palavrinha só: amor.
Amar alguém não é difícil, difícil mesmo é arcar com esse amor. Amar seu filho acarretará a uma série de renúncias, exigirá maturidade imediata.
Imagine uma mulher cujo sonho era ter uma carreira promissora, meteórica. Imagine essa mesma mulher sendo surpreendida pela maternidade. Excetuando-se as covardes que optam pelo aborto “por não ser aquele o momento propício para ser mãe”, imaginemos essa mulher repensando todo seu projeto de vida e optando por abraçar essa dádiva divina.
Sua carreira continuará sendo promissora, mas a marcha para essa ascensão será um pouco mais lenta. E isso não é algo ruim, pois cada passo dado representará uma sedimentação. O custo desse passo será tamanho que nada a fará dar ré. Quando alcançar o auge de sua carreira, será muito, mas muito difícil tirá-la de lá, porque ela escolheu chegar ali mais lentamente, mais firmemente, porque tinha de ser profissional e mãe!
Durante sua jornada, ela abriu mão de trabalhar loucamente, de estudar incessantemente os temas relacionados a sua profissão para aprender de novo a ser, para se reconstruir, para reprojetar sua vida. Ela não está mais só, seu filho, sua maternidade, seu amor pelo filho a fez crescer muito mais do que cresceria se estivesse na roda viva da vida.
Ela não abriu mão só de chegar mais rapidamente ao cume, abriu mão de noites de sono, de comida quente e na hora certa, de roupa permanentemente limpa, de andar sempre alinhada, de assistir silenciosamente ao seu programa favorito, de ir ao cinema ou ao teatro, de se encontrar com amigos.
Não deixou de fazer essas coisas, fazia-as sim, mas numa constância infinitamente menor. Então cada encontro com seus amigos era uma festa, cada comida era saboreadíssima, cada cochilo era reparador. Tudo era sempre muito intenso e essa intensidade nasceu não da falta de fazer essas coisas, mas junto com o seu filho, pois ele lhe ensinou que é difícil dar o primeiro passo, mas ele tem de ser dado e, ainda que sobrevenha uma queda, o reerguimento é necessário.
Amar também é saber dizer não, é ensinar o caminho correto, é mostrar para seu filho que fazer o bem vale a pena. Veja, eu disse mostrar, porque nada ensina mais que a prática. Então, graças a esse filho, essa mulher (re)descobriu o quanto é fantástico fazer as pessoas em volta sorrirem, (re)descobriu que todos somos humanos, todos merecemos ser olhado nos olhos e sermos ouvidos.
Olhando essa foto, fico imaginando o tamanho da dor dessa mãe que, por conta de uma guerra estúpida (todas as guerras são estúpidas), subitamente deixou de aprender, deixou de (re)descobrir. Aí vem a sua filha e mostra que ela pode ter deixado tudo, mas não deixou de ser mãe. Sim, ela morreu, seu corpo físico se foi, mas ela continua ali, sendo MÃE, mãe daquela menina que a carregará  pra sempre no coração, não importa o que aconteça, que irá se mirar no exemplo dessa mulher, que dará vida a cada palavra, a cada ensinamento... e tudo isso só foi possível não por conta de uma maternidade, mas porque essa mulher conseguiu mostrar para essa criança que ser uma boa mãe é amar.
Assim dizia o e-mail em que recebi a foto:
"MÃE EM UMA FOTO...
Nem sei o que dizer para encaminhar esta imagem.
Emocionante...
Só mesmo usando as palavras da Clarice Lispector:
'Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.'”


21 dezembro 2012

Feliz fim do mundo!!!

Que momento mais curioso. Estou aqui, em pleno fim do mundo (21/12/2012), ouvindo Never Say Goodbye (Bon Jovi) e fazendo planos e mais planos para 2013.

Alguns não deixei para 2013, já dei início. Um deles é ressuscitar meu bloguinho (bloguinho com carinho, não de menosprezo). A dúvida é: contar "causos" ou escrever textos sobre Direito??? Uma coisa é certa, vou dar um tempinho das musiquinhas que paginaram o blog.

05 junho 2012

Músicas em atraso

Tem sempre aquela música que todo mundo curte, todo mundo canta, todo mundo sabe, menos você. O tempo passa, todos se esquecem da música, não pensam mais tanto nela assim e é aí que eu entro: quando todos já não se lembram, a música dá um jeito de chegar em mim e bater em cheio!!! E foi exatamente isso o que aconteceu com "Vento no Litoral".

No auge da canção, achava a música um saquinho: aquela melodia tristinha, aquela voz de quem sofreu horrores e por isso fez a música. Simplesmente não a ouvia. Quando tocava nas rádios, logo mudava de estação.

Mas eis que (é, definitivamente o detalhe da vida está no "mas"), um belo dia, estava dirigindo, pensando em tudo o que tinha de fazer durante o dia e a música toca na rádio.

Absorta em meus pensamentos, um trechinho me tira do meu mundinho: "Dos nossos planos é que tenho mais saudade".

Voltei logo para e realidade e dei à canção a atenção que nunca havia dado.

Todos já tivemos sonhos desfeitos, todos já tivemos planos não concretizados... o problema é quando esses planos te martirizam de certa forma. Não, não é deixar de seguir, é pensar no "e se...". E se tivesse rolado a chance, e se tivesse aceitado a proposta, e se, e se, e se... é aí que entra o trecho "dos nossos planos é que tenho mais saudade".

É estranhíssimo sentir falta de alguma coisa que não foi além, que não se realizou, que acabou morrendo (ou sendo morta). Só que falar isso para uma pessoa que sente saudade de épocas que sequer viveu (como eu sinto saudades dos anos de 1950, 1960), é dizer absolutamente nada...

Então fui me dando ao luxo de analisar outros trechos...

"Sei que faço isso pra esquecer". Puxa, perdi a conta de quantas vezes me envolvia em vários projetos, para esquecer frustrações que me custaram muito. Tudo ao mesmo tempo agora (e tudo muito bem feito) era minha meta... minhas melhores notas na vida são da época em que me separei...

Na minha opinião, a estrofe mais forte, mais incisiva, mais doída é:

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...


Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou... é justamente isso!!! Eureka, Renato Russo, em duas frases, descobriu o que eu levei anos para descobrir!!! E descobriu antes mesmo que eu vivesse uma situação assim... agora entendo muito bem o que ele quis dizer e o que ele sofreu com tudo isso: tudo para dar certo, mas tudo dando errado.

Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo...

"Existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem". Essa frase é uma releitura do lema que resolvi adotar para mim mesma há muito, muito tempo. Com base nessa orientação, sigo em frente, não por força ou por determinação, mas só porque não tenho outra alternativa: o passado não volta, o futuro não me pertence, só me resta o presente. Fazer algo agora, neste instante, neste momento... depois pode ser muito tarde. Afinal, agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Adiou-se muito o que nunca poderia ser adiado... aí entra o trechinho de outra música:

You could've tried to see the distance between us
But it seemed to far for you to go
Do you remember?
 
Mas aí já é outra história...
 
Enquanto isso, curtam "Vento no Litoral"