15 maio 2006

Apocalipse

Se existisse uma Bíblia do Estado, certamente o que está ocorrendo em São Paulo seria o início do capítulo "Apocalipse". Não, caros leitores, não seria o ápice. O clímax de toda essa balbúrdia ainda está por vir, pois, como bons brasileiros que somos, assistiremos a tudo com um arremedo de indignação e, depois de iniciada a Copa do Mundo, tenderemos a colocar toda essa história, orquestrada por um bando de criminosos com a anuência das autoridades (inércia + politicagam = anuência), num local de nosso cérebro denominado "arquivo morto".

Estamos agora nos compadecendo da situação dos paulistas e paulistanos que, mais do que nunca, terão de se manter trancafiados em suas casas. Penalizar-nos-emos pelas famílias dos policiais, bombeiros e civis que foram mortos numa praça de guerra (mas como nosso país é adepto do eufemismo, do politicamente correto, "praça de guerra" receberá, convenientemente, outro nome. Pode ser "caso fortuito", "acontecimentos isolados", enfim, não faltarão termos para tentar amenizar o que está ocorrendo). Pensaremos "já foi tarde" sobre os (poucos) bandidos mortos nos confrontos. E, curiosamente, torceremos para que as rebeliões desencadeadas nos presídios recebam o mesmo fim que Carandiru (sim, aquele mesmo fim que outrora condenamos e nos revoltamos em ver o seu mandatário escapar da justiça por um tecnicismo qualquer, avalizado pelo(a) magistrado(a) designado para julgar o caso).

Quanto ao nosso verbo, nosso tão caro verbo "esquecer": iniciada a Copa, tudo isso não passará de uma esmaecida lembrança. Esqueceremos de toda a nossa revolta, de todos os mortos, de todo o medo. Olvidaremos da inércia das autoridades, principalmente do governo de São Paulo, que não aceitará ajuda alguma, pois isso representará (na cabeça doentia dos politiqueiros de plantão) uma "fraqueza política" que poderá ter reflexo nas urnas. E, com tudo convenientemente esquecido, tornaremos a dar a esses senhores e a essas senhoras a autoridade a qual nenhum deles tem competência, honra ou zelo para exercer.

Mas de todos os esquecimentos, só tem um, unzinho só, que teima em pulular na minha cabeça: onde estão os tais dos direitos humanos e as tão propaladas pastorais e demais redutos humanitários ligados às diversas igrejas???

De tudo isso, chego apenas a uma conclusão: não, não somos cidadãos. Não cobramos nada das autoridades. Permitimos que todos eles vilipendiem, dilapidem o nosso patrimônio. Deixamos todos eles pisarem em nossa dignidade. Trocamos nossos votos por promessas vãs e não cobramos essas promessas. Pagamos todas as propinas necessárias para vermos nossos interesses atendidos e, por conseguinte, achamos normal os políticos roubarem ("político é tudo corrupto". "Todo mundo que entra na política vira ladrão", etc.). Em vez de irmos aos "poderosos" deixar clara a nossa indignação, expomô-la aos servidores públicos que nos atendem e não podem mudar a situação de per si (são aqueles indivíduos que, ao se verem obrigados a cumprir uma lei da qual intimamente discordam, ouvem do atendido a máxima "sou eu quem paga o seu salário"). Enchemos de salamaleques os que elaboraram, deliberaram e votaram as leis expúrias. E achamos normal o precedente aberto por um Tribunal, a última instância do Poder Judiciário, de conceder regime de progressão de pena para praticantes de crimes hediondos. Assistimos a tudo isso com cara de paisagem e agora nos achamos no direito de sermos hipócritas ao murmurar "mas isso é um absurdo". Não, não é um absurdo, são apenas as conseqüências advindas da nossa inércia (a inércia é um perigo!).

Não sou vidente, mas me dou o direito de fazer uma previsão: caso não tomemos (sim, eu, você, o seu vizinho) uma atitude, mudemos nossa postura diante dos desmandos dos eleitos ou, pelo menos, aprendamos a votar e a cobrar dos votados, tudo o que está ocorrendo parecerá jardim da infância perto do que virá.

Até a próxima.

05 maio 2006

Yes, nós temos bananas!!!

... ou você ainda tem alguma dúvida depois do episódio "baixemos as calças para a Bolívia"???