08 novembro 2006

Parábola interessante

Sempre ouvi dizer q. perdoar era divino. Há pouco tempo, descobri que perdoar é libertador. Perdoando, libertamo-nos das amarras, das mágoas, de uma série de sentimentos ruins que pesam em nosso espírito. Descobri que se perdoar é mais difícil que perdoar o outro. Culpar os outros sempre foi muito fácil, mas olhar para si e deixar a consciência te julgar com a mesma severidade com que julga o outro é tarefa para poucos, muito poucos, e estou orgulhosa de ter conseguido fazer isso.

Em vez do perdão, sempre nos arrogamos no direito de achar que podemos cobrar do outro todas as dívidas das quais pensamos ser credores. Aí causamos sofrimento, muitas vezes sem intenção, noutras com uma vontade sádica de ver aquele que nos fez sofrer pagando por cada um de seus erros (convenientemente esquecendo-nos de que a perfeição não existe, bem como de qualquer coisa boa que essa pessoa possa ter feito por nós).

"O pequeno Zeca entra em casa, após a aula, batendo forte os seus pés no assoalho da casa. Seu pai, que estava indo para o quintal para fazer alguns serviços na horta, ao ver aquilo chama o menino para uma conversa.

Zeca, de oito anos de idade, o acompanha desconfiado. Antes que seu pai dissesse alguma coisa, fala irritado:- Pai, estou com muita raiva. O Juca não deveria ter feito aquilo comigo.Desejo tudo de ruim para ele.Seu pai, um homem simples mas cheio de sabedoria, escuta calmamente o filho que continua a reclamar:

- O Juca me humilhou na frente dos meus amigos. Não aceito. Gostaria que ele ficasse doente sem poder ir à escola.O pai escuta tudo calado enquanto caminha até um abrigo onde guardava um saco cheio de carvão Levou o saco até o fundo do quintal e o menino o acompanhou, calado.

Zeca vê o saco ser aberto e antes mesmo que ele pudesse fazer uma pergunta, o pai lhe propõe algo:

- Filho, faz de conta que aquela camisa branquinha que está secando no varal é o seu amiguinho Juca e cada pedaço de carvão é um mau pensamento seu, endereçado a ele. Quero que você jogue todo o carvão do saco na camisa, até o último pedaço. Depois eu volto para ver como ficou.

O menino achou que seria uma brincadeira divertida e passou mãos à obra. O varal com a camisa estava longe do menino e poucos pedaços acertavam o alvo. Uma hora se passou e o menino terminou a tarefa. O pai que espiava tudo de longe, se aproxima do menino e lhe pergunta:

- Filho como está se sentindo agora?
- Estou cansado mas estou alegre porque acertei muitos pedaços de carvão na camisa.

O pai olha para o menino, que fica sem entender a razão daquela brincadeira, e carinhoso lhe fala:

- Venha comigo até o meu quarto, quero lhe mostrar uma coisa.

O filho acompanha o pai até o quarto e é colocado na frente de um grande espelho onde pode ver seu corpo todo. Que susto! Zeca só conseguia enxergar seus dentes e os olhinhos. O pai, então lhe diz ternamente:

- Filho, você viu que a camisa quase não se sujou; mas, olhe só para você. O mal que desejamos ou fazemos aos outros é como o que lhe aconteceu. Por mais que possamos atrapalhar a vida de alguém com nossos pensamentos, a borra, os resíduos, a fuligem ficam sempre em nós mesmos.

Cuidado com seus pensamentos, eles se transformam em palavras;
Cuidado com suas palavras, elas se transformam em ações;
Cuidado com suas ações, elas se transformam em hábitos;
Cuidado com seus hábitos, eles moldam o seu caráter;
Cuidado com seu caráter, ele controla o seu destino."

A carta de Olívia a Eugênio

Um dos livros que amo foi escrito por Érico Veríssimo. "Olhai os lírios do campo" pode ser encarado como mais um livrinho água-com-açúcar dos tantos que há por aí, mas há uma grandiosidade, uma generosidade, uma sensibilidade que salta aos olhos (é clichê, mas não achei melhor). É uma expressão de fé na vida, nas pessoas, a fé que Olívia teve em Eugênio (ah, chega, leiam o livro que é bem melhor). Só para mostrar um tiquinho desse otimismo todo, transcrevo abaixo a carta de Olívia a Eugênio. É longa, mas vale cada segundo de leitura.

"Meu querido: o Dr. Teixeira Torres acha que a intervenção deve ser feita imediatamente e daqui a pouquinho tenho que ir para o hospital. Não sei por que me veio a idéia de que posso morrer na mesa de operações e aqui estou te escrevendo porque não me perdoaria a mim mesma se fosse embora desta vida sem te dizer umas quantas coisas que não te diria se estivesse viva.

Há pouco sentia dores horríveis, mas agora estou sob ação da morfina e é por isto que encontro alguma tranqüilidade para conversar contigo. Mas estarei mesmo tranqüila? Acho que sim. Decerto é a esperança de que tudo corra bem e que daqui a quinze dias eu esteja de novo no meu quarto, com a nossa filha, e meio rindo e meio chorando venha reler e rasgar esta carta, que então me parecerá muito tola e ao mesmo tempo muito estranha.

Quero falar de ti. Lembra-te daquela tarde em que nos encontramos nas escadas da faculdade? Mal no conhecíamos, tu me cumprimentaste com timidez, eu te sorri um pouco desajeitada e cada qual continuou o seu caminho. Tu naturalmente me esqueceste no instante seguinte, mas eu continuei pensando em ti e não sei por que fiquei com a certeza de que ainda haverias de ter uma grande, uma imensa importância na minha vida. São pressentimentos misteriosos que ninguém sabe explicar.

Hoje tens tudo quanto sonhava: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo que subia as escadas do edifício da faculdade, envergonhado de sua roupa surrada. Continuou em ti a sensação de inferioridade (perdoa que te fale assim), o vazio interior, a falta de objetivos maiores. Começas agora a pensar no passado com uma pontinha de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de consciência, não é mesmo? Pois ainda passarás horas mais amargas e eu chego até a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, há de nascer o novo Eugênio.

Uma noite me disseste que Deus não existia porque em mais de vinte anos de vida não O pudeste encontrar. Pois até nisso se manifesta a magia de Deus. Um ser que existe mas é invisível para uns, mal e mal perceptível para outros e duma nitidez maravilhosa para os que nasceram simples ou adquiriram simplicidade por meio do sofrimento ou duma funda compreensão da vida. Dia virá em que em alguma volta de teu caminho há de encontrar Deus. Um amigo meu, que se dizia ateu, nas noites de tormenta desafiava Deus, gritava para as nuvens, provocando o raio. Deus é tão poderoso que está presente até nos pensamentos dos que dizem não acreditar na sua existência. Nunca encontrei um ateu sereno. Eles se preocupam tanto com Deus como o melhor dos deístas.

O argumento mais fraco que tenho contra o ateísmo é que ele é absolutamente inútil e estéril; não constrói nada, não explica nada, não leva a coisa nenhuma.

Se soubesses como tenho confiança em ti, como tenho certeza na tua vitória final...

Deixo-te Anamaria e fico tranqüila. Já estou vendo vocês dois juntos e muito amigos na nova vida, caminhando de mãos dadas. Pensa apenas nisto: há nela muito de mim e principalmente muito de ti. Anamaria parece trazer escrito no rosto o nome do pai. É uma marca de Deus, Genoca, compreende bem isto. Vais contunuar nela: é como se te fosse dado modelar, com o barro de que foste feito, um novo Eugênio.

Quando eu estava ainda em Nova Itália. Li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro em grandes negócios, sindicatos, monopólios e não sei mais quê. Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.

E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.

Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu amigo Filipe Lobo, que seria um campeão de nossa causa se orientasse a sua ambição, o seu ímpeto construtor e a sua coragem num sentido social e não apenas egoisticamente pessoal.

Não sei, querido, mas acho que estou febril. Este entusiasmo, portanto, vai por conta da febre.

Ouço agora um ruído. Deve ser a ambulância que vem me buscar. Senti um calafrio e parece que minha coragem teve um pequeno desfalecimento. Estás vendo o tremor de minha letra? É que sou humana, Genoca, profundamente humana, tão humana que te confesso corando um pouco (apesar dos trinta anos e da profissão) que antes de ir para o hospital eu quisera beijar-te muito e muito.

Anamaria fica com D. Frida. Sei que depois, se eu morrer, virás buscá-la para a nova vida.

Reli o que acabo de escrever. Estou fazendo um esforço danado para não chorar. Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro de duas semanas eu esteja queimando esta carta que já agora me parece um pouco melodramática.

Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para “não te mandar”. Agora pode lê-las todas. Não encontrarás nada do meu passado, do qual nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer perguntas. É pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como minha vida já foi feia e escura e como lutei e sofri para encontrar a tranqüilidade, a paz de Deus.

Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva.

Tua para a eternidade.

Olívia"

As palavras de Olívia surtiram efeito, pois, algumas páginas após, Eugênio, numa conversa com um colega de profissão diz:

"Existem duas espécies de crueldade. A crueldade que se comete por cegueira, por incompreensão, e a crueldade que se comete por prazer. No primeiro caso, a educação dos sentimentos poderia melhorar a situação. O segundo é um caso de sanatório. Por isso é que eu digo que há um grande trabalho para médicos e professores."

Espero que gostem a ponto de lerem o livro e tentarem extrair dele um pouco da grandiosidade que pode ter o ser humano.

Até a próxima!!!

03 novembro 2006

E depois da tempestade...

SEMPRE vem a bonança!!!

Sempre imaginei a bonança como uma segunda tempestade cheia de coisas boas, mais ou menos como uma chuva de doces para uma criança. Noutras vezes, era como uma mudança diametralmente oposta à ocasionada pela tempestade. Mas agora estou descobrindo que não.

Antes mesmo de tecer qualquer comentário sobre a bonança, convém dar algumas pinceladas na fatídica tempestade. Há pessoas no mundo (sempre há) que têm o dom de nos magoarem. A eficácia com que conseguem impingir mágoas aos nossos corações, deixando-nos arrasados, péssimos, sentindo-nos como se ocupássemos injustamente um lugar no mundo, é merecedora do “ISO 9000 e qualquer coisa”. Transformam nosso coração num poço sem fundo de mágoas, sempre cabe mais uma, mais outra e mais outra e assim sucessivamente... mas, novidades, o poço tem fundo!!! (No meu caso, o poço é muiiiiiiiiiiiiiiiiito fundo, mas tem fundo sim.)

Aliás, ainda no meu caso, tenho de fazer um “mea culpa”: em que pese ter sido reduzida a achar que as pessoas me faziam um favor em apenas gostarem de mim (se houvesse uma escala de auto-estima, a minha estava beirando o menos infinito) e isso ter sido a principal condição para errar, ainda assim, errei. Se é passível de correção ou não, eu não sei, mas já virei a página e me perdoei.

Feito o “mea culpa”, voltemos...

Pensando que o poço não tem fundo, os detentores do “ISO 9000 e qualquer coisa” sempre arranjam um jeito de tornar mais eficaz o resultado da próxima mágoa (usam todas as pessoas e todas as coisas nesse fim). Antes de o poço chegar ao limite, sofre-se bastante (pão amassado pelo diabo com o rabo, com direito a pisadas, sentadas e outros atos do dito cujo é um manjar!!!). Quando o poço chega ao limite, Deus começa a entrar.

O primeiro sentimento é o de revolta, chega-se a odiar a pessoa (o tal detentor). Essa fase costuma durar bastante e é bem difícil, principalmente quando não se é dado a rancores, tristezas e sentimentos afins. Não nos reconhecemos, não somos aquela pessoa, não somos daquele jeito, não gostamos nem alimentamos a tristeza (mas alguém as alimenta muito bem e não poupa qualquer esforço para isso). Eis que chega a gota d’água. As mágoas transbordam e não fazem mais efeito (ou porque elas já não estão mais no poço, ou porque você já sabe que o que o detentor puder fazer para magoar, humilhar, pisar ele certamente o fará). Nesse estágio, você pensa “ok, já paguei pelo erro. Sua cobrança foi muito bem feita, agora estamos quites. A partir daqui, tudo o que for feito com o intuito de me magoar será uma cobrança indevida”. É nesse instante que você se perdoa, estabelece um limite para o seu sofrimento e começa a limpar o seu coração (o tal poço). Joga fora todas as mágoas, todas as tristezas e dá início à preparação do novo, do que virá, do por vir. Aqui inicia a bonança.

Com a bonança vem a esperança (rima não-proposital). Você volta a ser você, quem você era antes de toda a tempestade. Não se volta sozinho, volta-se com mais fé em Deus (que lhe segurou nas fases anteriores) e em você mesmo, ressurge-se com mais garra, com mais vontade de se viver, de progredir, de tornar seus sonhos realidade. E, por mais contraditório que possa parecer, com mais fé e esperança nas outras pessoas, acreditando piamente que o pesadelo acabou e você conseguiu passar por ele e sair melhor. Sim, você se torna melhor que antes!!! (parece inacreditável, mas é verdade). Tudo de ruim acaba, a escuridão acaba, pois você encontrou uma luz (no início, ela é pequena, mas a sua vontade de torná-la maior que a luz do sol é tanta que seu foco se vira para isso). Acham que acabou??? Não, tenho mais boas notícias!!! Essa luz não vem dos outros, vem de você!!! Você não a tomou emprestada de ninguém, não terá de devolver a ninguém, ela é sua!!! O que ou quem vier daqui pra frente será atraído pela sua luz e não pela sua dor. Quem vier, não vai querer lhe tirar do breu, emprestando a luz delas, vai querer unir a luz dele à sua para que se tornem maior que a luz do sol!!!

Um adendo antes de terminar: sempre falo que Deus nos manda uns anjinhos (mesmo que estranhos, mas anjinhos), para dizerem: “Olha, não se afunde não, porque Deus é contigo”. Pois bem, num espaço de uma hora escrevendo este texto, Deus mandou três anjinhos com esse recado. E a todos eles, respondi “eu sei! Minha fé me diz!”

Moral da história: por melhor que seja o “ISO 9000 e qualquer coisa”, toda e qualquer atitude que lhe magoe ou lhe atinja de certa forma só serve para mostrar quem é quem. É como li certa vez, quando indagaram sobre como superar uma grande decepção (no caso da pergunta, era uma decepção amorosa) “acredite que Deus está à frente e te livrou de uma grande enrascada” (não foi bem “enrascada” que usaram... era uma palavra começada por “m”, que não convém a um blog de respeito, né?). Por mostrar quem é quem, não se espante se o detentor se tornar um completo desconhecido e você se vir tratando-o como um desconhecido, posto que foi somente agora que você realmente o conheceu (sabe aquele papo de essência? Pois bem, antes você conhecia somente a aparência, agora revela-se a essência).

Até a próxima!!!