03 outubro 2013

Ao Meu Amor


Sempre tive em mente que, quando as almas gêmeas se encontram, tem alguma sonoplastia. Nuns casos você consegue ouvir um "plim"; noutros, os sinos dobram.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que vi meu sogro José Afonso.

Conhecemo-nos num bar que fica lá no CONIC (todas as vezes que passo ali, lembro desse dia e me vem um sorriso no rosto e meu coração fica bem quentinho). Mas antes fui "avisada" de seu suposto gênio difícil. Bem, sei que foi um gênio que nunca vi. Fui desconfiada, com um medo de apresentar a ele meu gênio também difícil. Assim, que nos vimos, deu pra ouvir os sinos. Embalamos uma conversa interminável, sobre diversos assuntos. perto de nos despedirmos, ele se vira para o filho e diz:

- Ela não é nada obtusa.

Metida como eu só, nem deixei o filho responder, já fui retrucando:

- Sou não, "seu" Afonso, Graças a Deus!

- E você sabe o que quer dizer obtusa?

- Sei sim!
- Minha filha, pode casar com o Júnior e, se um dia vocês separarem, eu serei seu advogado.
 
O tempo passou, casei, separei (não, ele não foi meu advogado, minha separação foi tranquila, não guardei raiva nem nada de ruim do filho dele. Nem poderia, de todas as desavenças com meu ex-marido, é bem nítida a boa criação que recebeu do pai), mas, mesmo não carregando mais o seu sobrenome, não deixamos de ser almas gêmeas.

Notei isso quando fui visitá-lo, já bastante debilitado por conta das sequelas deixadas por um AVC e vi, na estante do seu quarto, uma foto que tiramos assim que meu primeiro filho nasceu. Estávamos eu, ele e o Marco. Ele preocupado em não "quebrar" o neto e eu rindo da situação. Estávamos felizes ali.

Ver aquela foto lá, mesmo depois de separada do filho dele, fez-me ver o quanto eu era especial para ele. Naquele dia, conversamos sobre a advocacia (tinha me formado recentemente) e ele me contou da alegria que era não separar uma família, chamar os cônjuges para conversar e lhes mostrar a importância de se manterem unidos. Também sinto a mesma alegria e, sempre que consigo, lembro-me dele.

Agora minha alma gêmea está se preparando para me deixar. Mas como toda boa alma gêmea, posso, até nesse momento tão doloroso, valer-me da generosidade dele, para poder aceitar sua partida porque terei um pedaço dele comigo nas lembranças fantásticas que trago, no exemplo incrível de homem íntegro, honesto, batalhador, inteligente, estudioso que ele deixará aos filhos e aos netos e no modelo de excelente profissional: uma advogado que valorizava o que a advocacia tem de melhor a confiança que outro ser humano deposita em alguém completamente desconhecido.

Obrigada por tudo, Meu Amor!!! (Tratávamo-nos assim, por “meu amor”).